Capítulo I: A Tempestade

 A chuva fina caía na capital do reino, quando o sino do grande relógio badalava denunciando meia-noite, o porto se transformava um lugar onde comerciantes desonestos, contrabandistas e criminosos que se reuniam longe dos olhos das autoridades.

No centro de um círculo de espectadores barulhentos, um enorme Javali ergueu os braços, rindo e batendo no próprio peito. Seu último oponente jazia no chão, desacordado, enquanto alguns apostadores comemoravam e outros praguejavam suas perdas e jogavam notas amassadas no chão diante dele.

Uma figura misteriosa observava tudo com desdém do convés de seu navio, com seus olhos brilhantes de um azul turquesa ocultos sob a sombra de seu capuz, cada um dos canalhas desonestos ali presentes.

No meio do burburinho, Barbicha, o organizador do torneio ilegal, ergueu as mãos. 

-Muito que bem, muito que bem! Ballhog segue invicto! Mas será que ninguém vai desafiá-lo? Há ALGUÉM aqui que tenha coragem de encarar essa fera?! - Disse tossindo e arranhando a garganta de propósito.

Os olhares se voltaram quando um jovem de estatura incomum avançou entre os espectadores. Suas feições indicavam sua herança de gigante, mas a altura era bem inferior ao esperado.

— Eu enfrento ele. — A voz de Ryugikaya soou firme.

A multidão caiu na gargalhada

— Esse moleque acha que pode lutar? — zombou um bêbado.

— Vai ser esmagado igual um inseto! — gritou outro.

Ballhog cospiu no chão e estalou os dedos, sorrindo com desdém.

— Isso só pode ser uma piada, Barbicha. Você quer que eu esmague essa CRIANÇA na frente de todo mundo?

Ryugikaya cruzou os braços e inclinou a cabeça.

— Isso se eu não te esmagar primeiro, gordão!

A provocação fez os espectadores soltarem um "ooooh", ansiosos pelo desenrolar da luta, logo uma comoção"briga!, briga!, briga!, briga!" E o sorriso do javali sumiu, foi substituído por um olhar furioso.

 Com um rugido, ele se lançou para frente, erguendo um punho imenso. Seu golpe veio como um aríete, rápido e bruto, mirando a cabeça de Ryugi.

O impacto fez o chão vibrar—mas Ryugi não estava lá.

Com agilidade surpreendente, ele se esgueirou para o lado, deixando o punho do javali ficar preso no chão.

Antes que seu adversário pudesse reagir, Ryugikaya apareceu atrás dele e, com um único movimento fluido carregou suas manoplas feitas de metal que cintilavam energia e ao faiscar e cintilar, acertou um golpe devastador na lateral de seu crânio.

Um clarão. O impacto soou como o estrondo de um trovão depois de um relâmpago. O javali tombou para o lado, desorientado, cambaleando. O silêncio tomou conta da multidão por um instante antes de explodirem em exclamações surpresas.

No convés de seu navio, A figura encapuzada inclinou a cabeça. O garoto não era como os demais, seu coração era limpo, suas intenções eram verdadeiras e o que mais o intrigou era o porquê dele se misturar com aquela sujeira toda. Querendo ver mais do que aquele menino poderia fazer, sentou na beirada do alto de seu navio fantasmagórico e esperou.

A luta continuou. O javali era resistente e mesmo desorientado levantou-se furioso e cego de ódio. Ele atacava Ryugikaya com golpes brutais, tentando esmagá-lo com seu peso. Mas Ryugi era rápido, ágil como um raio. Ele desviava dos ataques e respondia com golpes certeiros, cada um amplificado pelas manoplas de metal que carregava. O trovão ressoava em seus punhos, e a eletricidade faiscava no ar.

Com um último soco devastador, Ryugi acertou o queixo do javali, lançando-o para trás. O brutamontes caiu inconsciente, arrastando poeira e sujeira enquanto deslizava pelo chão.

O silêncio tomou conta do lugar. E então, de repente, a multidão explodiu em gritos de fúria.

Os apostadores perceberam que haviam perdido dinheiro—e muito. Apenas uma pessoa havia apostado em Ryugikaya.

Barbicha.

Ele gargalhava enquanto recolhia as moedas, ignorando os olhares furiosos ao seu redor.

— Parece que o azarão virou o jogo, hein?

Mas havia um homem que não estava apenas furioso...

O chefe da guarda da capital estava presente, observava a luta  tudo no meio da multidão. Disparou um olhar para seus homens fazendo um sinal discreto e em poucos instantes, os portões da doca se fecharam com um estrondo. Cães começaram a latir, e sombras surgiram nos becos. O burburinho dos homens deu lugar a palmas lentas e estridentes

— Ora ora ora, então era tudo mais um esqueminha seu Barbicha? 

Barbicha se virou para o chefe e seu sorriso se transformou em um franzir de testa.

- Lionel... Assistiu a luta ? 

- Foi uma luta e tanto, gostei muito das manoplas do seu parceiro, tecnologia curiosa - disse ele caminhando devagar e enquanto o fazia, a multidão abria caminho até Barbicha.

-Gostou? ele mesmo que fez com o que coleta do lixo.

-Do lixo? Interessante mesmo, é um rapaz e tanto.

Lionel ergueu a mão.

- Pois bem, não gosto de estragar amizades por causa de dinheiro mas eu quero a minha parte do acordo...

- Olha Lionel, a luta foi justa, vocês subestimaram o garoto, eu confiei nele desde o início e ganhei a grana, simples assim.

- Acontece que você me deve, esse teatro seu só está de pé ainda por que eu faço vista grossa, temos um acordo e você não está fazendo a sua parte. Pague o que deve e ninguém se machuca.

Barbicha olhou para Ryugi, se lembrou de muita coisa que passaram juntos, de como se conheceram e o que os fez chegar até ali. O dinheiro não era para ele, mas para o garoto. Barbicha sabia da importância daquele dinheiro para Ryugi e sabia também dos riscos mas estava disposto a ajudar da maneira que ele conhecia.

 Ele então saca sua arma e atira à queima roupa em Lionel.

A partir dali tudo virou de cabeça pra baixo...Os cães foram soltos.

Os soldados avançaram.

E um banho de sangue se inicia

Os lutadores não se renderam, estavam endurecidos pela vida e canados, não iriam abaixar a cabeça nunca mais. Um brutamontes derrubou dois guardas de uma só vez, enquanto outro arrancava uma lança das mãos de um soldado e a usava contra ele.

Ryugi estava paralisado, até Barbicha o encontrar e correr carregando-o nos ombros

- Vamos cair fora daqui Ryu! Sei de um lugar que podemos ficar! Vamos pegar esse dinheiro e pegar um barco, conheço um médico que...

Até que então, tudo ficou escuro.

Sombras engoliam os guardas, como mãos invisíveis os puxando para o abismo. Gritos de terror ecoaram pela noite.

Quando Ryugi olhou para trás, viu uma figura alta e encapuzada.

Seu nome era Velkan.

O ar ao redor dele era pesado, úmido, com um cheiro de podridão e maresia. Os guardas se debatiam, tentando escapar de tentáculos espectrais que os arrastavam para um destino pior que a morte.

Ryugi respirava com dificuldade, Barbicha tossia tanto que não aguentava mais ficar de pé e então os dois cairam no chão.

Velkan não disse uma palavra. Apenas se virou para Ryugi e o carregou nos ombros para fora da nuvem de fumaça da podridão

Ryugi se debatia, gritava para se soltar e salvar seu amigo deixado para sucumbir ao veneno

Barbicha se arrasta para fora da névoa e desaparece na confusão.

As docas se transformaram em um verdadeiro inferno, a podridão espalhava-se e contaminava tudo ao redor criando cracas e fungos nas paredes até que uma onda varreu tudo recolhendo os corpos e os levando para o fundo do oceano.

Ryugi não conseguia enxergar muito bem, sua visão turva e tosse se intensificaram até que ele perdeu sua consciência.

O som das ondas batendo contra o casco era o único ruído que quebrava o silêncio.

Ryugi acordou com um solavanco, tossindo. O gosto salgado do sangue e da maresia queimava sua garganta. Tentou se mover — mas cordas grossas, úmidas, prendiam seus pulsos e tornozelos.

O convés balançava sob seus pés. O ar era frio, denso, impregnado de podridão.

Ao seu redor, o navio parecia vivo: o madeirame gemia, as velas tremulavam mesmo sem vento, e uma névoa leitosa cercava tudo, tornando impossível enxergar o horizonte.

Na penumbra, uma silhueta se movia. O capuz negro escondia o rosto, mas os olhos — frios, azul-esverdeados, como o fundo de um mar morto — fitavam Ryugi com um interesse quase clínico.

— Acordou. — A voz soou grave, abafada pela máscara que usava, distorcida como se viesse debaixo d’água.

Ryugi tentou responder, mas tossiu. As cordas cortavam sua pele.

Velkan se aproximou, cada passo ecoando no convés vazio.

Abaixou-se diante do garoto.

— Não sei por que te trouxe pra dentro do meu navio. Você devia ter sido levado pela maré. — Disse, passando o dedo pela manopla danificada de Ryugi.

O toque deixou um rastro de vapor, como se o ar ao redor se corrompesse.

— Me joga no mar então. — respondeu Ryugi, rouco, provocativo.

— Não posso. O mar te rejeitaria. Te vomitaria de volta. Assim que chegarmos em terra firme, te largo em qualquer canto.

Ryugi fechou os olhos, tentando entender o que tinha acontecido. Tudo parecia um sonho maldito.

— Foi você que fez aquilo... nas docas? — perguntou.

— Foi.

— Então por que não me mata logo?

Velkan não respondeu. Apenas o olhou por um momento — um olhar profundo, vazio — e virou-se para dentro da cabine.

A porta rangeu e se fechou.

Os dias vieram lentos.

A chuva ia e voltava, e o sol, quando surgia, parecia distante, sem calor.

Ryugi continuava preso ao mastro, com a pele rachada de frio e o estômago queimando de fome.

À noite, o navio gemia como se respirasse.

Às vezes ele achava que ouvia vozes no vento — sussurros que vinham do mar.

Velkan mantinha uma rotina que parecia um ritual.

De manhã, navegava em silêncio, com as mãos firmes no leme e um colar de contas entre os dedos.

À tarde, ficava imóvel diante do mar, murmurando orações em uma língua que Ryugi não conhecia.

À noite, acendia uma lamparina e estudava o mapa, traçando rotas com um compasso enferrujado, sempre olhando o céu, como se as estrelas o julgassem.

Ryugi o observava em silêncio. O tempo se arrastava.

Um dia, a fome venceu a raiva.

Ele parou de tentar quebrar as cordas e começou apenas a contar as batidas do coração para não enlouquecer.

Numa manhã cinzenta, acordou com um cheiro diferente.

Aos seus pés, um prato de cerâmica com um peixe assado e um cantil de água.

As cordas haviam sumido.

Ryugi caiu de joelhos e devorou o peixe com as mãos.

Não viu que estava sendo observado.

— Não morra. — disse Velkan da escadaria.

Ryugi levantou o rosto, os lábios sujos de gordura.

— Muito obrigado pela comida! — gritou, curvando-se de forma exagerada, quase cômica.

Velkan tentou esconder o espanto.

— Não me agradeça. Agradeça ao mar.

Ryugi virou-se para o horizonte enevoado e berrou:

— OBRIGADO, MAR!

Por um segundo, Velkan congelou.

Não lembrava a última vez que alguém havia falado com o mar sem medo.

E, sem querer, sentiu algo que há séculos não sentia: um lampejo de humanidade.

— Seja lá quem é você, obrigado por ter me salvado — continuou Ryugi. — E por não ter me matado também.

Velkan suspirou.

— Eu não sei por que te trouxe pra cá. Espero não me arrepender disso.

— Você não vai! Agora temos uma dívida!

— Dívida? — Velkan arqueou as sobrancelhas. — Não somos nada um do outro.

— Somos parceiros de barco!

— Negativo.

— Ah, vamos! Se não vai me jogar no mar, me deixa ajudar. Eu posso remar, consertar o que for. Preciso de dinheiro, e piratas ganham dinheiro, né?

— Não sou pirata.

— Então me leva com você, capitão-não-pirata!

Velkan o olhou por alguns segundos, impassível. Depois empurrou o garoto com um movimento seco — mas sem força o bastante pra machucá-lo.

— Cala a boca e come.

Ryugi sorriu.

— Tá vendo? Já tá parecendo um capitão.

Velkan virou o rosto e entrou em sua cabine fechando a porta com força.

O mar estava calmo naquela manhã, mas o céu, cinza e pesado, prometia chuva.

Ryugi, de joelhos, esfregava o convés com um pano velho e um balde de água salgada. O trabalho não fora pedido — ele simplesmente começou, cansado de ficar parado.

Cada movimento fazia o corpo doer, mas a mente permanecia distante.

Pensava nas docas.

Pensava em Barbicha.

E pensava na mãe, tossindo na cama, no cheiro de mofo e querosene da casa que chamavam de lar.

A imagem do rosto dela — pálido, magro, mas sempre sorrindo quando ele voltava — queimava na cabeça como uma lâmina quente.

O barulho do balde sendo arrastado parecia o mesmo som do respirador velho que usavam pra aliviar a tosse dela.

“Eu preciso voltar”, murmurou.

O vento levou as palavras antes que terminassem de sair da boca.

Trabalhou por horas, mesmo sem ordens. O chão já brilhava, mas ele continuava passando o pano, de um lado pro outro, como se esfregar o convés pudesse apagar a culpa de ter fugido.

Velkan apareceu sem fazer barulho, como sempre.

Encostou-se ao mastro e ficou observando o garoto em silêncio.

— Não vai quebrar o navio se continuar esfregando desse jeito? — perguntou, a voz rouca, quase irônica.

Ryugi parou, respirando fundo.

— Eu... precisava fazer alguma coisa. Ficar parado me deixa maluco.

Velkan cruzou os braços.

— Você devia descansar.

— Descansar não enche barriga. Nem paga remédio.

Velkan arqueou as sobrancelhas sob o capuz.

— Remédio?

Ryugi hesitou, era como se tivesse escapado, depois vendo que não tinha saída, continuou:

— Minha mãe... ela tá doente. Tava antes de eu vir pras docas. Eu entrei nas lutas por causa disso. Queria juntar dinheiro pra ela e pro Barbicha... o velho me ajudou, sabe? — ele engoliu seco. — Mas agora nem sei se tão vivos.

O capitão nada disse. O som das ondas tomou o espaço das palavras.

Ryugi sentou-se, apoiando os braços sobre o balde.

— Eu vou voltar. — disse, com a voz firme. — Vou conseguir dinheiro e tirar minha mãe daquele lugar.

Velkan observava em silêncio. Aquela determinação — tão tola e pura — parecia impossível pra alguém que crescera entre sangue e podridão.

Ryugi olhou pra ele, os olhos brilhando.

— Me deixa trabalhar aqui. Eu posso ser guarda-costas.

Velkan riu, um som curto e rouco, como o estalo de uma madeira seca.

— Guarda-costas? Você?

— Eu sou rápido. E minhas manoplas ainda funcionam, só preciso consertar. Eu posso te proteger se aparecer problema.

— Problema... — Velkan olhou para o horizonte enevoado. — O problema sempre vem.

— Então pronto! Me deixa te ajudar. Me paga um pouco, só o suficiente pra eu voltar pras docas e... cuidar dela.

Velkan deu alguns passos, o olhar fixo no mar.

— Você não entende o que está pedindo. Ficar comigo não é um favor — é uma maldição.

— Então eu aguento a maldição — respondeu Ryugi, sem pensar. — Já vivi coisa pior.

O silêncio durou longos segundos. Só o rangido do navio e o farfalhar das velas.

Velkan girou o rosto, e seus olhos brilharam sob o capuz — frios, mas não vazios.

— Se é isso que quer... vai trabalhar.

Sua voz saiu firme, mas sem a dureza de antes.

— Limpe o convés, arrume as velas, e mantenha distância da minha cabine.

Ryugi arregalou os olhos.

— Então... isso quer dizer que eu tô contratado?

Velkan suspirou.

— Quer dizer que, se me irritar, eu te jogo no mar.

Ryugi abriu um sorriso largo, o primeiro sincero em dias.

— Fechado, capitão!

Velkan virou-se para o leme, balançando a cabeça.

Mas, quando o garoto começou a cantarolar enquanto esfregava o chão, o som ecoou pelo convés como algo vivo — algo que o navio não ouvia há muito tempo.

E, pela primeira vez desde que o mar o amaldiçoa, Velkan sentiu que talvez, só talvez, ainda houvesse vida a bordo daquele navio morto.


O dia começou com silêncio — o tipo de silêncio que antecede tragédias.

O mar estava tão calmo que parecia uma placa de vidro. Nem o vento soprava.

Velkan, no leme, olhava o horizonte, inquieto.

Ryugi, sentado perto do mastro, afiava um pedaço de metal improvisado em forma de faca.

— Tá tudo quieto demais — murmurou o garoto.

Velkan não respondeu. O ar estava pesado.

E, de repente, veio o som. Um rugido distante, profundo, como se o próprio oceano respirasse.

O vento virou. As velas inflaram com violência. O navio gemeu.

— Segura firme! — gritou Velkan, girando o leme.

As ondas se ergueram de uma vez, monstruosas, altas como muralhas. A chuva caiu sem aviso, grossa, cortante como vidro.

Ryugi tentou correr para ajudar, mas o convés se inclinou e ele foi jogado contra o corrimão.

Um raio cortou o céu — tão forte que o clarão apagou o mundo por um instante.

O som veio depois, ensurdecedor. O raio atingiu o mastro principal, que explodiu em chamas azuis.

O navio estremeceu. O ar se encheu de cheiro de ozônio e madeira queimada.

Velkan tentou conter o fogo com as próprias mãos, e o mar respondeu: colunas de água se ergueram, mas eram inúteis.

O navio rachou. As cordas se soltaram. O convés partiu em dois.

— RYUGI! — gritou Velkan, tentando alcançá-lo.

Mas a onda seguinte os engoliu.

Tudo virou escuridão.

Água, trovões e silêncio.

Quando Ryugi abriu os olhos, a primeira coisa que sentiu foi o gosto de areia e sal.

A chuva ainda caía, agora mais fina, mas o frio cortava como navalha.

Tossiu, rolando de lado. Ao longe, viu Velkan, ajoelhado, as roupas rasgadas, o capuz pendendo, os olhos brilhando mesmo sob a tempestade.

Estavam em uma praia estreita, cercada por pedras negras e penhascos. O mar rugia atrás deles, tentando alcançar a areia.

Ryugi se arrastou até um rochedo e se apoiou, ofegante.

— Tá... todo mundo vivo? — tossiu.

Velkan não respondeu de imediato.

Abaixou a cabeça, pousando a mão sobre o chão molhado.

— O mar não devia estar assim. — murmurou. — Alguém o forçou.

Ele se levantou lentamente, os ombros tensos.

Ryugi o olhou, confuso.

— Forçou? Como assim?

Velkan olhou para o horizonte tempestuoso, os olhos estreitos.

— Não é uma tempestade natural.

Um trovão retumbou perto demais. E dessa vez, o clarão veio do solo, não do céu.

Um raio azul golpeou a areia diante deles, abrindo uma cratera fumegante.

Quando a fumaça se dissipou, uma figura surgiu.

Um homem — ou algo próximo disso.

Gigantesco, coberto de pelos e cicatrizes, com uma barba espessa e olhos que reluziam como relâmpagos.

Estava descalço, o corpo marcado por tatuagens rúnicas que pulsavam à medida que o trovão soava.

Nas mãos, empunhava um machado tão largo quanto um homem.

O metal chiava, elétrico, como se respirasse tempestade.

Ryugi deu um passo atrás.

Velkan, por outro lado, ficou imóvel.

— Hurk... — disse em voz baixa, quase um lamento.

O urso-homem sorriu, mostrando dentes amarelos.

— Ainda lembra o meu nome, monstro?

A voz de Hurk era um trovão contido — profunda, vibrante, cheia de rancor.

Ele caminhou até eles, cada passo fazendo o chão tremer.

— Faz muito tempo que sinto seu cheiro podre, Velkan. — continuou. — Eu achei que tivesse afundado daquela vez. Mas o mar... o mar te protegeu.

Velkan ergueu o olhar, a chuva escorrendo pelo rosto.

— Não ouse falar do mar você não o conhece, é apenas um primata sujo.

— Fale o que quiser, pois hoje eu acabo o que comecei. — Hurk girou o machado e o cravou no chão, fazendo faíscas saltarem. — Você se escondeu por tempo demais de mim...

Ryugi se colocou entre os dois, trêmulo, mas firme.

— Ei, calma aí! Quem diabos é você?

Hurk o olhou com uma certa pena.

— Agora você sequestra garotos também? Que tipo de arrombado você é?— disse.

Ele ergueu o machado contra Velkan

O som do trovão respondeu.

Velkan estendeu o braço, empurrando Ryugi para trás.

— Fique fora disso moleque.

-- Espera, você está com ele?

— Vai sonhando que eu vou ficar parado Capitão !— gritou Ryugi, cerrando os punhos, as manoplas faiscando com os últimos resquícios de energia.

Hurk ao ver as manoplas de energia de Ryugi, se impressionou e hesitou por alguns instantes


- Capitão? - disse confuso - Então você...


- Ele é meu capitão e eu sou o guarda costas dele! Então para trás para não se machucar


Hurk deu uma gargalhada alta - Desculpe garoto, não é com você mas, ver o Corsário da Peste, O Terrível se escondendo atrás de você é hilário - Ele ri por mais alguns segundos com a mão na barriga, pede um segundo, e se recompõe:

- Pois bem, vamos ver do é capaz...garoto guarda costas.


Um tentáculo surge atrás de Ryugi, o prendendo pelos braços e pernas, e antes que pudesse dizer algo, eles o puxam para baixo, como se existisse um poço muito fundo na areia


Hurk furioso diz:


- Seu merda! Ele é uma criança! Qual o seu problema?

- Para mim apenas um contratempo, vamos acabar logo com isso, macaco velho...

Hurk encheu-se de fúria, então um trovão rompeu o céu. O raio caiu — e o impacto lançou areia, sal e vento em todas as direções.

Velkan desviou por um triz, o machado de Hurk cortando o ar a centímetros de sua máscara. A lâmina afundou na rocha, abrindo uma fenda.

Hurk puxou a arma de volta com um rugido que parecia rasgar a própria tempestade. — Correndo de mim, monstro!? — gritou ele, a voz misturada ao trovão. — Até quando vai se esconder atrás do mar!? 

Velkan avançou — um borrão escuro entre relâmpagos. O punho envolto em névoa pútrida atingiu o peito de Hurk. O impacto fez o chão tremer e a lâmina se partir. Mesmo assim, o guerreiro apenas deu um passo para trás... e riu. 

Velkan cerrou os punhos, como se agarrasse algo.Hurk aproveitou a brecha — desferiu um soco tão forte que o chão afundou sob o impacto, levantando uma nuvem de poeira.

Mas o golpe não acertou nada. No lugar de Velkan, apenas uma poça de água vibrava no chão. 

Antes que pudesse reagir, Hurk sentiu algo se prender em suas pernas — tentáculos espectrais saindo do solo, frios e pulsantes, enrolando-se em torno dele.

Velkan emergiu logo atrás, saindo de outra poça de água. Sem a máscara. O olhar vazio e mortal.

Ele ergueu a mão, pronto para decepar o pescoço de Hurk.

Mas o guerreiro girou o machado num reflexo perfeito — e o fio atingiu o abdômen de Velkan, rasgando-o de lado a lado.

Velkan não recuou. Sorriu.

E do corte, uma nuvem esverdeada explodiu, se espalhando como veneno pela chuva.


Hurk levou o antebraço ao rosto, tentando se proteger — mas era tarde demais.

A nuvem verde se espalhou, densa como óleo queimado.

Sua visão escureceu; só conseguia enxergar um palmo à frente.

O ar tornou-se pesado, fétido.

O corpo dele tremia e suava, e a respiração vinha em arfadas curtas, sufocadas.

Cada inspiração trazia o gosto amargo da podridão — algo vivo se arrastava por dentro de seus pulmões.

Preso. No escuro. Sem saída.

Pensou, rangendo os dentes:

“Merda... esqueci da técnica da podridão... o corpo daquele desgraçado está cheio de veneno.

Não sei se aguento por muito tempo...”

A dor veio primeiro no abdômen — quente e profunda.

Olhou para baixo: sangue.

Logo depois, outra pontada.

Cortes longos abriram-se em seus braços, como se lâminas invisíveis o dilacerassem.

Um impacto o fez perder o equilíbrio.

Seu corpo foi lançado para frente, e o gosto metálico do sangue encheu sua boca.

O tridente de Velkan atravessava seu peito.

A voz do morto sussurrou em seu ouvido, fria como o fundo do mar:

— Primata imundo... nunca mais fale do mar desse jeito na minha frente.

Na verdade... sou eu quem acabo o que comecei.

Hurk ergueu o olhar.

Tentáculos se estendiam sob seus pés, se enrolando em suas pernas, o puxando para baixo.

E quando percebeu, já estava submerso — o mundo inteiro se dissolvia em sombras líquidas.

A pressão da água esmagava seus ossos.

A luz desaparecia.

O silêncio... era absoluto.

Ele então teve um lampejo, uma iluminação e rapidamente mordeu a própria língua com força.

O gosto de sangue trouxe-o de volta.

Abriu os olhos.

O cenário havia mudado — o mar, o tridente, os tentáculos — tudo se distorceu, como vidro quebrando.

Velkan estava diante dele, prestes a cravar o tridente outra vez.

Mas Hurk se moveu primeiro.

Abaixou-se, girando o corpo com um rugido.

O punho dele subiu num arco perfeito — o gancho de direita acertou o queixo de Velkan com força brutal, levantando-o metros acima do chão.

O ar explodiu.

Velkan girou no ar, o tridente escapando de suas mãos.

Hurk arfou, cuspindo sangue.

Mas sorriu.

“Era tudo apenas ilusão...”

A chuva voltou a cair, dissolvendo os últimos traços da névoa.


O trovão rugiu outra vez.

A chuva agora caía como navalhas.

— Achou mesmo que eu ia cair nesses joguinhos? — rosnou Hurk, limpando o sangue da boca. — Sua técnica da névoa pestilenta não é segredo pra ninguém...

Velkan se recuperou do golpe, cuspindo algo espesso e escuro — não sangue, mas uma substância pútrida, viva.

Ele ergueu o rosto e sorriu, os dentes manchados.

— Quem você quer enganar, velho? Você caiu feito um patinho.

Inclusive, a sua arrogância e prepotência vão ser o seu fim.

A névoa pestilenta faz muito mais do que você imagina... ou você acha mesmo que eu não aprendi nada desde a última vez?

Hurk sentiu um impacto seco no peito.

O veneno começou a circular, queimando suas veias.

Seu nariz sangrou, os músculos travaram, e as pernas fraquejaram.

O tentáculo que o prendia se contorceu e agarrou seu braço — algo pulsou, como se sugasse sua essência para fora do corpo.

Velkan começou a rir.

Baixo, rouco no início.

Depois mais alto.

E mais.

Até que sua risada virou um grito ensandecido que ecoou pelos penhascos.

— Seus esforços são inúteis! — berrou ele, os olhos acesos como faróis no nevoeiro- Isso já acabou faz muito tempo! Você é um velho teimoso, um tolo que não sabe quando aceitar a derrota! Uma vez marcado pela peste, eu ganho a alma da pessoa afetada por ela...e a entrego de tributo ao mar!

Ele abriu os braços, e a chuva o cobriu como um manto sagrado. — O mar me honra com o antigo poder de Athallassa, a glória daquele que os homens chamam de Deus Afogado — Aika! E a ele hoje me entrego, e ofereço a sua alma como morte e sacrifício!

Glória ao mar!

— Cala a boca, seu imundo... — respondeu Hurk, a voz tremendo, mas firme. — Depois ainda me chama de arrogante... Mas você já deu vitória pra si mesmo.

Aika não é o que você pensa que é.

Velkan cuspiu no chão, o rosto torcido de desprezo.

— Heresia... — sibilou.

Avançou como uma sombra dividida em duas — uma em cada lado da chuva.

o Tridente se dividiu em dois sabres, um em cada mão.

O mundo se desfez em relâmpagos.

A maré se revoltou.

Os ventos rugiram.

E a violência dos céus parecia espelhar a de Velkan.

Cada golpe cortava o ar como uma sentença.

Ele atacava sem hesitar, sem ritmo — apenas fúria.

Os sabres riscaram o corpo de Hurk inúmeras vezes: braços, pernas, tórax.

O sangue se misturava ao veneno, e cada gota que caía na areia fazia o chão apodrecer.

Hurk mal conseguia reagir.

O corpo já não obedecia.

Mas seus olhos ainda ardiam — uma chama que se recusava a morrer.

Velkan girou os sabres uma última vez, cruzando-os em um X fazendo uma cicatriz no peito de Hurk que é lançado para longe de seu machado.


Ele se levanta, uma demonstração incrível de força já que para um ser humano ou uma criatura comum, o veneno já teria o matado naquele estado, mas Hurk de fato era algo a mais...


- Não me impressiona ainda estar vivo, velho... Que o mar o carregue...


Nesse momento uma enorme onda avassaladora muito maior que um navio atinge a praia, destruindo tudo que encontra pela frente. Árvores, animais, destroços, tudo é levado para o fundo do mar exceto Velkan que não é atingido pela correnteza.


Momentos depois calmaria, a chuva cessara e a maré volta ao seu estado normal. 


Velkan deu um passo e de repente Hurk surge da areia debaixo dele, segurando seu machado tempestuoso dando-lhe um baixo pra cima um golpe meia lua devastador, arrancando dele sangue e alguns dentes


Velkan se recompõe rapidamente e sem hesitar conjura seu tridente de seu peito e parte para cima com fúria.


E antes dos dois se chocarem, Ryugi surge como um relâmpago entre os dois, segurando suas armas com suas manoplas, o impacto ecoou para fora da ilha.


-Garoto? - diz Hurk


- Eu já disse...eu sou...o guarda costas dele... Fique longe!


E com uma força surpreendente, Ryugi gira o corpo segurando as armas, Hurk sente seu machado pesar sobre seus braços é lançado para longe.


- Chega disso... Chega de morte... Ninguém precisa morrer... Vamos resolver isso de outro jeito que acham?


Hurk ainda estava com raiva mas havia respeito — respeito genuíno — no olhar dele para o garoto. Ele sentia que já tinha visto aquela força antes, muitos e muitos anos atrás..."Talvez não seja apenas força" pensou.

Velkan também sentiu, aquilo o fez enxergar algo que há muitos anos não tinha presenciado e confirmou o que havia visto no garoto.

— Certo… — murmurou, limpando o sangue da boca. — Faz anos que não perco uma luta.

E perdi hoje. Para você.

Eu te subestimei… e peço perdão.

Ryugi abriu um sorriso leve, quase desconcertado.

— Ah, imagina… hehe… eu só… puxei vocês longe, né?

Meu nome é Ryugikaya. Mas pode chamar de Ryugi!

Hurk estendeu a mão, enorme, pesada.

— Hurk.

Prazer.

Velkan, ainda cambaleante, recolocou a máscara.

— Então… trégua?

Os dois se entre olharam e um fez a entender o que o outro comunicou mesmo sem dizer uma palavra,bos olhares eram algo como " Você também?".

Hurk soltou um suspiro profundo.

— Podemos dizer que sim...

Eles seguiram ilha adentro até chegar em um pequeno casebre no alto de um morro.

Quando entraram, Ryugi ficou impressionado:

a casa era simples, mas cheia de vida — cabras, horta, pássaros estranhos.

Hurk despejou a bebida nas canecas e se sentou pesadamente.

Velkan comentou: — Morar aqui deve ser castigo até pra você.

Hurk riu pelo nariz.

— Vindo de um peixe podre como você, eu levo isso como elogio.

Ryugi olhou ao redor. — Mas… o senhor mora aqui sozinho… há muito tempo?

Hurk não respondeu imediatamente.

Girou a caneca na mão.

— O tempo é relativo, mas, sim.

Velkan soltou: — Ele já foi alguém importante. Muito importante. Pelo menos é o que dizem por aí.

Ryugi inclinou-se para frente

— Como assim?


Silêncio.


Hurk respirou fundo.

— Não gosto de falar disso.

Ryugi, educado, recuou. — Desculpa… não quis ser intrometido.

Hurk encarou o garoto — não com irritação, mas com… algo que Ryugi não soube decifrar.

Velkan, porém, percebeu.

— Ele participou da Guerra da Libertação — disse Velkan, com um tom neutro e cuidadoso incomum para ele. — Foi o braço direito do Gigante Goliaz.

Ryugi engasgou.

 — O quê!?

Hurk suspirou

— Você é foda hein Velkan...

Ryugi brilhava.

Era como se estivesse sentado diante de um mito.

— Então… você conheceu o Gigante Goliaz!?

O sorriso de Hurk foi pequeno, nostálgico… e profundamente triste.

— Conheci sim , na verdade melhor que isso… eu o vi se tornar o que se tornou... Hoje naquela praia eu pude vê-lo de novo...

- O que você está insinuando velhote?

- Não se faça de besta Velkan, você também sentiu, só não quis admitir isso.

- Mas ... Meu pai disse que isso foi muitos e muitos anos atrás, se for você mesmo, o senhor deve ter no mínimo uns quinhentos anos! Como isso é possível?

- Bom, se não acredita, eu posso te mostrar.


Hurk se levanta, e vai andando até seu quarto, a medida que a madeira rangia Ryugi ficara ainda mais curioso


Até que ele retorna a cozinha com uma pequena caixa feita de madeira, ele assopra todo o pó de cima dela e a abre com cuidado.

Dentro dela, uma pedra oval irregular e estilhaçada com um inscrição em rúnico em um idioma muito antigo.

- Isso foi tudo que restou dele, um pequeno fragmento de sua armadura...Isso aqui é o idioma dos gigantes... O seu idioma ancestral.


Ryugi abriu os olhos e quase como um imã estendeu a mão para encostar na pedra.


Até que ela rapidamente foi atraída para seu braço com a manopla e ativou ela num feixe de luz que podia ser visto há quilômetros de distância


Hurk e Velkan ficaram assustados.


Em seguida, o machado de Hurk também foi atraído e a pedra rúnica que lhe dava poder se desprendeu e se juntou a Ryugi carregando o outro braço da manopla 


Ryugi começou a sentir um poder jamais visto, ele teve uma visão, a silhueta de um homem perante a luz, sombras ao redor dele que se retorciam e se deformavam até tudo cair em uma escuridão profunda e da escuridão uma voz o chamava... "Ryugikaya... Ryugikya..."


Ao acordar, o garoto estava ainda no chão, Velkan e Hurk estavam ao seu lado com expressões de medo, preocupação e admiração.

- O que aconteceu?

- Um verdadeiro milagre... - Disse Hurk entusiasmado





— Então deixa eu ver se eu entendi… eu sou especial? — Ryugi perguntou, com os olhos brilhando.

Hurk bufou, mas um riso escapou.

— Não vai se achando muito, garoto. Não tem profecia, nem destino, nem essas merdas de lenda. Só tem um fato: ninguém consegue usar o poder do relâmpago sem ter sangue dos gigantes de Jothunheim.

Ele ergueu um dedo. — Talvez você tenha alguma descendência. Ou algo parecido.

— Tá, mas e você? — Ryugi apontou para o machado. — Como usa essas coisas? Seu machado é feito de raio, né?

Hurk olhou para a arma com um respeito silencioso.

— Meu machado foi um presente. Ele me abençoou… ou amaldiçoou, nunca decidi. O fato é: controlar a tempestade é coisa que só gigante consegue. Magos soltam uns raiozinhos, sim… mas domar o trovão? Isso é outra história, foi assim que o mundo começou, praticamente.

Os olhos de Ryugi se arregalaram.

— Nossa… então eu também posso?

— Pode. — Hurk admitiu, relutante. — A pedra reagiu a você de um jeito que eu nunca vi.

Ele franziu o cenho. — Mas o curioso… é que você já parecia controlar a eletricidade antes disso.

Ryugi sorriu, meio sem graça.

— Ah… isso é por causa dessas belezinhas aqui. — Ele levantou as manoplas. — Eu e um amigo construímos usando sucata do lixão.

Hurk o encarou por alguns segundos, como se tentasse encaixar algo na própria memória.

— Mesmo assim… é estranho.

A voz dele tinha um peso que Ryugi não entendeu. Ainda.

Velkan observava a conversa quieto, encostado no canto mais escuro da sala.

A cada palavra trocada, o respeito dele por Ryugi crescia —

um orgulho estranho, que ele não admitiria nem sob tortura.

Por fim, ele pigarreou.

— Desculpem interromper… mas tem algo que precisamos resolver.

A atenção dos dois se voltou para ele de imediato.

Velkan cruzou os braços.

— Vocês afundaram meu barco. Eu preciso voltar para o mar assim que possível. Se ficarmos tempo demais em terra… irritamos quem não devíamos.

Hurk assentiu devagar.

Havia sinceridade ali, pela primeira vez desde que o encontraram.

— Você está certo, peixe podre. — disse com um meio sorriso cansado. — Eu devo isso a vocês. Posso ser velho, mas ainda sou justo.

Ele respirou fundo antes de continuar:

— Tenho um amigo em Porto Forte. Se falarem com ele, conseguem o barco que quiserem.

Ryugi franziu o cenho.

— Porto Forte? Mas isso é longe pra caramba… só dá pra ir de barco mesmo.

— Use o meu. — disse Hurk. — É pequeno, mas aguenta. Vim pra cá com ele.

- Me diga Hurk. Onde está o seu barco?

- Venham comigo, irei mostrar pra vocês...

Velkan observou Hurk, seu olhar clínico percebendo a sombra de preocupação no rosto do guerreiro. — E você? Vai ficar tocando cabras enquanto o mundo vem investigar a luz que seu fragmento emitiu?

Hurk sorriu, um sorriso cansado de quem conhece o peso das consequências. — Alguém tem que ficar e receber os convidados indesejados, peixe podre. Aquele clarão não passou despercebido. Se houverem sobreviventes da velha guerra… ou caçadores de relíquias… eles virão aqui primeiro. É melhor eu estar aqui para… dar as boas-vindas.

Ele olhou para Ryugi, e sua expressão se suavizou um grau. — Além do mais, o caminho de vocês é diferente do meu por agora. Eu tenho alguns velhos túmulos que precisam ser visitados. Memórias que essa pedra 

reavivou.


Ryugi sentiu um aperto no peito. — Mas… e o senhor? Fica sozinho?


— Sozinho é o que eu sei ser, garoto. — Hurk colocou a mão enorme no ombro de Ryugi.

Içaram as velas e logo o vento tomou conta e estendeu os tecidos para frente

Velkan fazia todos os preparativos para a navegação enquanto Hurk e Ryugi conversavam na praia.


- Garoto, tome isto...- disse Hurk estendendo a mão para o menino que estendia de volta de mãos abertas


A forma era uma pequena pedra irregular entalhada com um símbolo rúnico irreconhecível 


- O que é isso? - perguntou Ryugi curioso


- Isto é uma algema mágica, capaz de prender quem for marcado com ela. Use isso quando precisar, não se sabe nunca o quão emocional podem ser as criaturas, ao mínimo deslize algo pode virar contra você, então mantenha isso perto ok?


- Pode deixar. - disse ele assentindo com a cabeça.


Velkan desceu do navio emprestado e viu algo brilhando na praia, quando chegou perto reconheceu na hora.

" A única coisa que sobrou de você meu navio..." Pensou com tristeza, o navio e o mar são as únicas coisas que ele de fato demonstrava afeto, pelo menos era o que pensava.

Acariciou o crânio que ficava em sua mesa, um crânio quebrado que usava como recipiente para guardar suas canetas e minúcias. Mas dessa vez sentiu uma presença forte e intensa do fundo dos olhos daquele crânio


- Velkan?


O capitão deu um pequeno pulo de susto, quase deixou cair


- Vocês me assustaram...


Ryugi deu una gargalhada alta e Hurk um pequeno riso

- Aqui o mapa da navegação 

- Acha que eu não sei navegar?

- O "X" marca o local, peixe podre

Velkan toma o mapa com violência, analisa e logo ajeita seu chapéu, um pequeno gesto de cumprimento antes de subir ao convês.


- Adeus senhor Hurk, tenha cuidado...


- Até logo meu rapaz, ainda vamos nos encontrar novamente disso eu tenho certeza.


O assim debaixo de sol e sentindo o vento e o mar, Velkan e Ryugi partiram para Porto forte, um lugar que de fato iria ficar em suas memórias para sempre.


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